“Parece-me que já cumpri minha missão. Em Paris, em Roma preguei a lei de Deus: em Paris, como na capital do mundo e em Roma, capital do catolicismo; fiz oralmente e por escrito. Observei a santa pobreza, doei o que me pertencia e hoje em dia, graças a Deus não recebo nada, nem da diocese de Cuba, nem da Rainha” (Carta a D. Paladio Currius, 2 de outubro de 1869, em EC II, p. 1423).

A ALEGRIA DA META

Em outubro de 1869, exatamente um ano antes de morrer, Claret escrevia desde Roma, onde se preparava para participar do Concílio Vaticano I, a seu grande colaborador, amigo e confessor, D. Paládio Currius. Reconhecia humildemente ter sido fiel à missão recebida, ter dado tudo; agora, esgotado e enfermo, se preparava a dormir em paz. O Senhor lhe havia concedido a sorte de trabalhar pelo evangelho, em escala não imaginável, na África (Canárias), América (Cuba) e Europa e nas duas cidades mais simbólicas do mundo: Paris, capital do império e Roma, capital da cristandade. Sentia a alegria de que ia morrer pobre e esquecido pelos grandes da terra: seus bens eram outros! Impossível não perceber em suas palavras um eco das de Paulo a Timóteo: “Estou a ponto de ser derramado em libação e o momento de minha partida é iminente. Combati o bom combate, cheguei à meta, guardei a fé” (2Tim 4,6-7). Claret tinha também muito claras em seu coração estas outras palavras do Apóstolo: “Ninguém de vocês vive para si mesmo; e nenhum morre para si mesmo. Se vivemos, vivemos para o Senhor; se morremos, para o Senhor morremos; assim, quer na vida, quer na morte, ao Senhor pertencemos” (Rm 14,7-8).

Somente quem se entrega vive profundamente. Porque uma coisa é viver e outra ser vivido, levado pelo que acontece, por outros, sem colocar paixão nem consciência. E quem se entrega chega finalmente em paz ao descanso no Senhor, que era sua meta.

Depois de uma vida de trabalhos e penas, o grande místico São João da Cruz traçava assim o desenlace: “fiquei e me esqueci / o rosto reclinado sobre o Amado / tudo acabou e me entreguei / deixando meu querido / entre as flores esquecido”. Descansaria sereno na consumação do esperado, como escrevia outro claretiano: “E cheguei, de noite, com o feliz espanto de ver, por fim, que andei, dia após dia, sobre a mesma palma da Tua mão...” (Casaldáliga).